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Desejo de desistência...

  • Foto do escritor: Amanda
    Amanda
  • 13 de mai.
  • 8 min de leitura

“[...] E há aquelas de quem não tenho vontade de falar, não tenho vontade de me afastar falando, não tenho vontade de falar com as palavras que se afastam das coisas, e o ruído de seus passos cobre as pulsações das coisas, e com as palavras que caem sobre as coisas e paralisam seu estremecimento, e as desafinam e as ensurdecem; temo a queda das palavras sobre sua voz.”

Hélène Cixous, A hora de Clarice Lispector


Na situação da análise, como em outros espaços, a fala do analisando é estruturada em forma de demanda ao Outro. Fala-se em busca de uma suposta unidade compreensiva que pudesse confirmar uma realidade a partir da resposta do Outro. O movimento transferencial analítico implica uma suposição de saber endereçada ao analista. O dizer do analisando contorna a impossibilidade de saber sobre si, criando vazios que busca preencher pelo suposto saber de um Outro que conheceria seus enigmas, e, por isso, deteria o poder de decifrar seus sintomas e apaziguar seu sofrimento. A pessoa do analista se torna, para o analisando, aquele a quem se dirige a pergunta que não se sabe formular. Desenrola-se uma narrativa próxima ao mitológico, em uma busca incessante pela transmissão de uma verdade sobre quem se é. Verdade esta que se esforça a não provocar enganos - « é o que o sujeito mais teme: enganar-nos, colocar-nos em uma pista falsa ou, mais simplesmente, que nós nos enganemos »1. A transferência nasce, portanto, dessa aposta : A ideia de que um saber está em jogo e que ele pode, pouco a pouco, ser tocado pela fala

Se « desde que haja em algum lugar o sujeito suposto saber, [...] há transferência. »2, a especificidade da escuta analítica encontra-se na recusa dessa posição que lhe é endereçada - a de quem sabe sobre o outro. O sujeito suposto saber não constitui uma propriedade de fato da pessoa do analista, mas uma formulação de estrutura, necessária para que o sujeito coloque em movimento suas cadeias significantes. 

Jacques Lacan utiliza-se do apólogo do « menu chinês »3 para ilustrar o caráter singular dessa relação: o analisando dirige-se ao analista como o cliente de um restaurante que, diante de um cardápio em uma língua que não compreende, recorre ao garçom para orientar sua escolha. Ao fazê-lo, dirige a seu interlocutor uma pergunta sobre seu próprio desejo “o que eu quero?”, na expectativa de que esse detenha, em si, a resposta. No entanto, a função a que se presta o analista parte da não aceitação desse lugar de saber. Responde, em vez disso, da consideração indispensável à cura analítica: o inconsciente que lhes constitui implica em uma impossibilidade de tudo saber.

Sendo assim, o saber central à práxis analítica não se constitui pelo acúmulo de conhecimentos teóricos, visando uma direção consciente e protocolar de um sujeito em pretensa universalidade. Diferentemente da prática de um cirurgião, o analista parte da consideração de sua própria divisão pela linguagem e, portanto, de sua própria inacessibilidade a um saber pleno. O que está em jogo é, sobretudo, um saber-fazer com um impossível a saber, com o qual o analista se depara em sua própria análise pessoal: « o analista, melhor que qualquer outro, deve saber que não pode ser senão ele mesmo em suas palavras »4. Saber não poder ser outro que não ele mesmo implica reconhecer-se como efeito dessa falta e, por isso mesmo, não se oferecer como instância de completude ao sujeito faltante do analisante.

Esse gesto de deslocamento de um lugar de complemento do vazio do outro exige recusa a um exercício de poder. A partir da noção da primazia do significante, reconhece-se a não possessão da letra: a trajetória simbólica determina a posição e o destino dos sujeitos, independentemente de suas intenções conscientes. Esse movimento abre vias para o desligamento da presunção de poder sobre a língua, que Derrida trabalhou sob o neologismo désistance - desistência. "Desistir" possibilita o deslizamento da pessoa do analista para uma função analítica, fundada na renúncia de seu próprio gozo, que permite o desligamento de seus ideais e fantasmas. Paga-se com seu próprio eu, unidade imagética e mítica de totalidade, para responder de um outro lugar... o de sujeito dividido: « O analista também deve pagar: pagar com palavras, sem dúvida, […] mas também pagar com sua própria pessoa, na medida em que, malgrado o que sinta, ele a empresta como suporte aos fenômenos singulares que a análise descobriu na transferência »5.

O analista, assim, abstrai-se de toda posição especular, da qual ele se veria tentado a projetar suas palavras e ideias sobre o analisante, em uma espécie de clarividência identificatória. Um espelho não representaria para além da enganosa superfície una do analista. Este não deve agir a partir de sua autonomia imaginária, mas da exterioridade do significante que o constitui enquanto efeito. Interroga-se, portanto, sobre a origem de suas intervenções: « de onde vêm essas palavras? »6. Ao questionar a proveniência de seu dizer, o analista abdica da ilusão de ser seu autor ou centro, reconhecendo que a ênfase não recai no eu enunciado, que se pretende origem da palavra, mas no “de”, que aponta para a estrutura simbólica da qual ele emerge como resultado. Essa distinção fundamental permite que a interpretação analítica não seja uma projeção da maestria do eu, mas um ato que sustenta a descentração do sujeito em relação ao saber e, por conseguinte, ao poder.

Opera-se na clínica psicanalítica um esforço constante para sair da lógica binária dominante na cultura ocidental, que exigiria uma separação clara entre sujeito, que vê, analisa e compreende, e objeto, que é analisado e explicado, mas nunca sujeito de sua própria linguagem. Esse movimento sustenta-se pela ética própria à psicanálise, que recusa qualquer formalismo técnico prescritivo ou classificatório, a fim de sustentar a emergência do sujeito em sua singularidade: «Trata-se, de fato, de um certo tipo de rigor ético, fora do qual qualquer cura, mesmo repleta de conhecimentos psicanalíticos, não passaria de psicoterapia »7. Tal ética provém do reconhecimento do desejo - o Wunsch freudiano - enquanto indomável e irredutível. Nessa medida, a função analítica se exerce como operador ético que, ao recusar modelos pré-construídos de interpretação, faz obstáculo à redução da práxis a uma função normativa: « A análise não é uma simples reconstituição do passado. A análise também não é uma redução a normas pré-formadas»8.

Isto porque toda tentativa de reconduzir o desejo a uma lógica adaptativa, conformativa ou de valorização social, não apenas o reduz, como desconhece seu funcionamento próprio. Por sua lógica fundamentalmente metonímica, o desejo subverte as fixações identificatórias ali onde elas fingem estabilidade, afirmando-se como aquilo que reside no cerne da subjetividade, ao mesmo tempo em que se opõe a ela « como uma resistência, como um paradoxo, como um núcleo rejeitado »9.  Essa tensão constitui a própria estrutura do sujeito barrado que a operação analítica deve sustentar, o que exige, portanto, um trabalho com o desejo, que pode ser tido como questão fundamental do exercício analítico. 

Se o desejo é desejo do Outro, o do analisante apresenta-se, inicialmente, como tentativa de responder ao enigma do desejo do analista.  Este, por sua vez, ao recusar-se a atender às demandas que lhe são endereçadas, preserva a abertura necessária para que o desejo do sujeito se descentralize de sua captura pelo suposto desejo do Outro. É assim que Lacan afirma que «  devemos guiá-lo não em direção ao nosso desejo, mas em direção a um outro »10, operando cortes no tecido simbólico com intervenções que visam promover um desassujeitamento. 

A posição do sujeito pode ser articulada ao enigma do desejo do Outro através da interrogação fundamental: « Che vuoi ? » — « O que ele quer? » ou « O que ele quer de mim? ». A ação de corte, de não resposta à demanda, confere à posição do analista um lugar esvaziado, que sustenta a vacuidade do grande Outro. Com isso, o sujeito confronta-se com a inexistência de uma relação de complementaridade - "não há relação sexual" - mesmo diante de suas tentativas fantasmáticas de tornar-se Um. A interpretação analítica introduz, portanto, uma descontinuidade decisiva, que desorganiza a economia que sustentava a busca pelo saber e reorienta o sujeito para a causa de seu desejo. Essa mudança permite um desapego gradual das coordenadas da alienação, tornando mais flexíveis as possibilidades de posicionamento subjetivo.

O desejo do analista pode ser concebido como o desejo de manter essa interrogação, impedindo que o discurso do sujeito se feche em torno de uma resposta imaginária única e totalizante. Recorrendo a Khoury9, esse desejo é tido como vetor do reconhecimento, por parte do sujeito, do seu próprio desejo, promovendo uma dessubmissão em relação às alienações primordiais que lastram sua existência. A “solitude” da função analítica - « ele cuja ação, na solidão em que tem de responder a seu paciente  »11 - consiste, também, na particularidade desse desejo, que, a partir da consideração do real como o que não cessa de não se escrever, escapando a toda e qualquer tentativa de simbolização, não se organiza pela fantasia de uma relação de comunicação e compreensão com o outro. 

Nesse contexto, o desejo do analista leva à assumpção do semblante de objeto a, com a função de relançar a metonímia do desejo. O ato analítico se orienta, portanto, rumo à manutenção de uma distância flexível entre os ideais - ponto a partir do qual o sujeito se constitui como aquilo que supõe ser amável ao Outro - e o objeto a, marca da impossibilidade da saturação do desejo. Tal dissociação requer que o analista aceite a queda de sua posição ideal, para se colocar no lugar do resíduo ou do descarte da operação.

Nesse sentido, Lacan define o desejo do analista como o desejo de obter a “diferença absoluta”, designando o momento lógico em que o sujeito, liberto da rigidez de suas fixações identificatórias, assume sua posição como sujeito do desejo. Essa condição sustenta a posição analítica diante da angústia, preservando a orientação da práxis psicanalítica em relação ao real, em direção a uma verdade singular do sujeito de desejo:  « Pois o que mais buscamos na análise, senão uma verdade libertadora? »12.

O dizer do analista se sabe atravessado pela linguagem, e por isso mesmo, não se oferece como garantia ao outro, o que se trata da condição para que a intervenção não se reduza a uma prática sugestiva ou pedagógica. A recusa do poder de uma suposta direção plenamente consciente da cura permite sustentar o impossível, gesto que se configura como operador clínico rigoroso, sem o qual o trabalho desliza a uma psicoterapia adaptativa.


Notas de rodapé:

  1.  Lacan, J. (1964). Le Séminaire, Livre XI : Les quatre concepts fondamentaux de la psychanalyse. Staferla. p.19.

  2.  Ibid. p.127.

  3. Sobre esse apólogo, ver Lacan, J. (1964). Le Séminaire, Livre XI : Les quatre concepts fondamentaux de la psychanalyse

  4. Lacan, J. (1955), Variantes de la cure-type, Dans Écrits, 1999, p.359.

  5. Lacan, J. (1966). La direction de la cure et les principes de son pouvoir. Dans Écrits (p. 585–645). Éditions du Seuil.

  6. « a saber que coloque a ênfase no « eu », a saber o que eu posso proferir, mas talvez também de colocar a ênfase no « de », ou seja, de onde isso vem, um ensino do qual eu sou o efeito ». Lacan, J. (1972–1973). Le Séminaire, Livre XX : Encore. Staferla. p.35.

  7.  Lacan, J. (1966).Variante de la cure-type. Dans Écrits (p. 323-362). Éditions du Seuil.

  8. Última lição do Seminário VI (1 de julho de 1959). Cf. Lacan, J. (1958–1959). Le Séminaire, Livre VI : Le Désir, Staferla.

  9. Última lição do Seminário VI (1 de julho de 1959). Cf. Lacan, J. (1958–1959). Le Séminaire, Livre VI : Le Désir, Staferla. p. 328

  10. Ibid. p. 336

  11. Lacan, J. (1955), Variantes de la cure-type, Dans Écrits, 1999, p.359.

  12. Khoury, M. (2018). Le Désir du psychanalyste aujourd’hui. Revue française de psychanalyse.

  13. Lacan, J. (1955), Variantes de la cure-type, Dans Écrits, 1999, p.359.

  14. Lacan, J. (1959-1960). Le Séminaire, livre VII. L'éthique. Staferla p. 15.




 
 
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