O estranho familiar como experiência corporal na leitura de Mia Couto
- Amanda

- há 20 horas
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Mia Couto, figura singular da literatura lusófona, inscreve sua obra na hibridez própria das realidades pós-coloniais moçambicanas. Nascido em 1955 de uma família portuguesa, em Beira, Moçambique, o autor carrega em si a tensão identitária de um país onde o passado colonial e a multiplicidade de línguas – mais de vinte além do português, definido como idioma oficial – tecem um espaço de convergências e fraturas. Essa complexidade atravessa sua escrita, conferindo-lhe uma textura em que o familiar se embaralha e a estranheza (o Unheimilich freudiano) infiltra-se na trama do cotidiano.

Sua coletânea de contos O Caçador de Elefantes Invisíveis convida a uma errância por um mundo onde o ordinário desliza em vertiginosas profundidades. A história de Moçambique, marcada por quatro séculos de colonização portuguesa, uma guerra de independência (1964–1975) e uma guerra civil (1977–1992) constitui o pano de fundo de contos em que passado e presente se sobrepõem em um jogo de reflexos perturbador. Esse empilhamento temporal inscreve uma inquietante estranheza como experiência sensorial: o leitor molha os pés nas águas mansas e rasas de uma aparente banalidade atual e cotidiana... até que o horror emerge do próprio familiar, dos vestígios de uma história que marca a singularidade narrativa de cada indivíduo de uma população e, em um turbilhão, devora carne e ossos do leitor, sem permitir concessões. Por meio de uma escrita atravessada pela poesia, Mia Couto evoca esse mundo em que nossos referenciais se turvam, nos arrastando brutal e lentamente em direção a uma zona que nos cega por uma infinidade de incertezas...
Essa estranheza surge, antes de tudo, da proximidade (perturbadora) que Mia Couto estabelece entre leitor e personagens. Ele nos convoca a acompanhá-los sem, no entanto, ocupar o seu lugar - sem, sobretudo, apagá-los. Essa sensação de que o corpo do leitor caminha lado a lado ao corpo narrado do personagem se constrói em uma escrita que desdobra, borda e costura emoções com uma sensibilidade desarmante. E que, por isso, entra pelos nosos poros e narinas, tornando-se emoções compartilhadas. Leitor e personagem são, então, cúmplices. Em O vestido vermelho, o autor instala progressivamente uma ambiente de desfamiliarização que pode ser ouvido, visto, sentido... o leitor é convidado a uma narrativa descritiva da chuva, em toda a sua banalidade cotidiana, criando um ponto de contato, de espaço e conhecimento comum, entre quem lê e quem é contado... Até que, ali, nessa chuva tão familiar, insinua-se uma violência latente, brusca e irreversível. O espanto advém da percepção sensorial (carnal) de que o horror já habita o nosso mundo, alojado na banalização da violência, naquilo do ordinário que escolhemos não encarar. O familiar volta-se sobre si mesmo: a estranheza nasce quando se reconhece que o horror se inscreve no cotidiano, que ele adere ao que parecia comum.

A inquietante estranheza se estende, assim, na confrontação do leitor com seu próprio ser, exigindo um encontro com o que se tenta manter à distância (escondido de nós mesmos?). Ler Mia Couto não é, não pode ser, sem efeitos. Suas palavras atuam como anzois que resgatam o que insistimos em ignorar. A passividade forçada diante do horror da guerra e da colonização retorna pulsante, abrindo feridas na pele, como arranhões inferidos de dentro para fora. Sua escrita revira nossos olhos para dentro, para aquilo que, em nós, sustenta silenciosamente a permanência de certas formas de dominação e de sofrimento do outro. O estranho familiar atua, aqui, como um espelho que reflete o mais interno de nós, onde se deixam entrever as sombras das quais tanto buscamos nos afastar. Já não há garantia sobre quem somos.
Essa dinâmica se deixa entrever no episódio do inspetor, figura de superiodidade colonial, que afirma conhecer Marito, personagem apresentado como trabalhador assíduo de um local historicamente importante para ele e sua comunidade. O colonizador que sabe sobre o povo que coloniza, que destroi. A presunção de saber sobre o outro, como evidência, dado e fato que se constroi, produz violências discretas e persistentes. A pretensão de deter qualquer tipo de conhecimento absoluto sobre um outro sujeito opera como forma de dominação que fixa e aliena, em ressonância com a psicanálise: encerrar o analisante em um saber prévio é sufocar sua emergência singular, mantê-lo preso em um enquadre que o reduz.
Mia Couto, assim, desmonta a posição confortável de espectador passivo. Ele nos arrasta frente a frente ao que "se deve" calar e nos convoca, dessa forma, a interrogar não apenas a história e suas marcas, mas também as cumplicidades silenciosas que permitem a continuidade de tantas formas de opressão. A atmosfera de ameaça se constitui ao redor, na pele e nos orgãos internos do leitor, em uma experiencia não só imersiva, mas corporal, nos fazendo sentir que a vivência de uma história de guerra está também na violência do apagamento da memória de um povo.





