A escrita poética como convocação à desistência
- Amanda

- há 14 horas
- 5 min de leitura
Pensar a poesia com a psicanálise — ao menos como me arrisquei a fazê-lo — não visa, de modo algum, aprisioná-la em uma grade explicativa e redutora. Trata-se, antes, de tecer apostas, abrir questões e aproximar-se dessas zonas para além do sentido. Territórios que me magnetizam precisamente porque se esquivam, ali onde o indizível traça suas tramas de paixão.
A escrita poética convoca a um descentramento: privada de respostas claras e satisfatórias, o pensamento convencional acaba por “entregar os pontos”. É nesse frisson do inesperado que o termo desistência — desistance, conceito trabalhado por Derrida — vem me interpelar.
Desistir sem se des-existir (désister sans se désister) desenha um movimento nem estritamente ativo, nem passivo. Tal oscilação me convida a explorá-lo na intimidade da escrita poética. Desistir do poder sobre a língua é deslocar o próprio solo onde permanecíamos cativos de um modelo de expressão orientado unicamente para a compreensão, para a busca de uma confirmação do ser na relação. Essa operação suspende a perseguição de um laço ilusório de complementaridade com um Outro que, como recorda René Major, permanece “ao menos duplo”.

Pergunto-me, então, se a desistência no ato poético não poderia ser lida como esse gesto de desprendimento face à busca por consistência, sentido ou completude — essa busca tão humana e tão enganadora — para voltar-se à consideração do real. Renúncia esta não heroica ou divina, mas resultado do trabalho silencioso de distanciamento de certas fixidezes; uma operação pulsional em que a pulsão de morte não é a adversária da vida, mas seu próprio ímpeto vital. Um ato de separação que autoriza o sujeito a criar, despojando-se do saber prévio que o mantinha agarrado, preso, às mesmas identificações.
Talvez seja por isso que a rosa de Cecília Meireles paga, com as próprias pétalas, o preço de oferecer ao vento seus perfumes:
Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.
C. MEIRELES
A escrita exige desistência: que o eu do escritor se retire por um instante, cedendo lugar a um ser de falta, para que este possa advir, enfim, como poeta. E como ser outramente, senão imaginariamente? Como ser, senão por esse intervalo vazio que nenhum "eu-todo" poderia preencher? Esse eu, constructo de imagens que anseia tão veemente por unidade — tão aferrado ao Um — deve eclipsar-se para que o sujeito possa navegar em um infinito que não se expressa em imagem e não se traduz em sentidos.
Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!
Assim como não se é analista a todo instante, pergunto-me se não seria vã presunção crer que se possa ser poeta na própria espessura da carne. Haveria talvez um grão de loucura — daquela de que fala Lacan, a loucura de um rei que se acredita rei — em supor-se poeta por essência. O poeta não seria, antes, um instante, um sopro, um efeito de renúncia?
Não concebo a escrita poética como o eco de um saber técnico, nem como a mestria sobre uma língua e suas formas. Seria quase ingênuo, longe demais do que ali se joga. Percebo-a como um deslize para fora de qualquer posição de domínio, já que a língua, tão garantida quanto uma moeda falsa, desvia por essência de todo controle.
Renunciar a assegurar um sentido, a garantir a “moeda verdadeira”, pode ser a única maneira de tangenciar efeitos artísticos da linguagem. Derrida recorda que nada garante o valor da palavra — tanto quanto o da moeda: ela circula num regime de crédito simbólico onde o título faz valor sem garantir o que anuncia. Talvez por isso a poesia dependa desta oscilação, desta ambiguidade: cada palavra, como cada moeda, carrega em si uma falsidade potencial, e é ao apostar neste risco que se abrem as vias do poético.

Ah! Se pudéssemos nos organizar segundo o equilíbrio das estrelas, tão exatas em suas constelações!
Mas parece que a graça se situa num meio-tom.
Na ambiguidade.
E as estrelas, pobrezinhas, equilibradas, mas que tremem tanto em sua solidão.
L. FAGUNDES TELLES
A língua opera no vazio, testemunha de nossa incompletude. Quando se deixa de querer assegurar um destinatário,de cunhar a moeda justa ou certificar sua autenticidade, escreve-se a partir da equivocidade fundadora do ser falante. Engana-se o outro ao mesmo tempo em que se engana a si próprio. E é nesses intervalos de engano que a poesia se insinua. A falsidade da linguagem não é um defeito: é a condição mesma da ex-sistência. É porque o signo pode trair aquilo que parece valer que a cadeia significante pode bordear o real, sustentar a metonímia necessária ao desejo e, assim, abrir vazios onde a criação se aventura.
Ex-sistir como poeta, desde então, requer não tomar a própria palavra como padrão-ouro, nem supor que o efeito sentido em si deva repercutir de forma idêntica no leitor. Uma escrita garantida — verdadeira, autêntica, assegurada — seria tão mortífera quanto um laço sem falta, sem risco, sem falha. Sem falta, o desejo se cala; sem risco, a criação se extingue.
Assim, a escrita poética encontra em Derrida e em Lacan um eco vibrante: o da impossibilidade de ancorar o significante, de garantir a autenticidade de seus efeitos. Talvez escrevamos exatamente porque um real impossível de saturar convoca as palavras a circunscrevê-lo. A língua, sempre um pouco suspeita, sombra e simulacro, sabota todo modelo, toda fórmula, toda exatidão. E é nessa impossibilidade fundadora que a poesia ganha fôlego: fazendo trabalhar o equívoco, o intervalo onde insiste o impossível-a-saber.
A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito.
Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.
M. BARROS
Penso que a escrita poética se articula por meio de apostas, cujo desfecho só se revela a posteriori (no après-coup), nesse tempo lógico imprevisível, nesse espaço em suspenso entre o texto e o leitor. Talvez seja justamente aquilo que nos escapa que nos destina à poesia. As pétalas que perdemos, as renúncias às quais consentimos, são o preço a pagar por esse ser poeta que advém no instante da escrita.
Amanda TELES ALBERTONI




