A psicanálise é uma questão morcego
- Amanda, Gabriela e Marie

- 18 de ago. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 26 de ago. de 2025
A aproximação entre a figura do morcego em Lacan (no Seminário 11 e artigo) e a fábula Le chauve-souris, le buisson et le canard de La Fontaine abre caminhos para pensar a psicanálise de forma alegórica, questionadora e crítica.
Essa referência não é apenas ilustrativa, mas orienta uma posição ética e epistêmica da psicanálise. Na fábula de La Fontaine, o personagem “morcego” alterna a sua posição a partir da narrativa - narra-se ora como um animal roedor, ora como um voador -, escapando da fixação da imagem. O animal se esquiva de uma definição estável/rígida/congelada e se transforma conforme o interlocutor. Ele é, em si, ambíguo - assim como a psicanálise e o analista.
A relação entre o morcego da fábula e o analista se dá na medida em que o analista não está onde o analisando o coloca, e não responde desse lugar. A partir desse lugar, a resposta do analista é na verdade uma incógnita capaz de produzir movimento no discurso do analisante. Além disso, o analista, assim como um morcego, não se orienta pela visão, pela imagem, mas sim pelo que ele escuta.
Nas palavras de Lacan:
Em outras palavras, todo reconhecimento da psicanálise, como profissão e como ciência, propõe-se com base num princípio de extraterritorialidade ao qual é impossível ao psicanalista renunciar, mesmo que o negue, colocando toda validação de seus problemas sob o signo da dupla pertença que os torna tão inatingíveis quanto o morcego da fábula
(1955, tradução nossa).
A fábula atua ainda como alegoria da posição da psicanálise no campo do saber: a psicanálise não se fixa em uma posição institucional fechada, mas se constitui pela intersecção entre discursos de diferentes campos, navegando entre eles e se orientando por uma ética que recusa o saber totalizante.
A referência de Lacan à fábula de La Fontaine no Seminário 11 é uma forma de dar corpo à pergunta “o que é a psicanálise ?”, sem, no entanto, defini-la finalmente. Isso permite que a psicanálise continue se questionando sobre si mesma e movimentando seu saber.
LACAN, Jacques, 1960. Seminário 11.
LACAN, Jacques, 1955. Variantes de la cure-type.




