O estrangeiro em nós: Outro, (A) e a psicanálise
- Amanda, Gabriela e Marie

- 18 de ago. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 28 de ago. de 2025
Migrar não é apenas cruzar fronteiras geográficas. É também cruzar barreiras simbólicas: uma língua que não é a nossa, códigos que nos escapam, modos de vida que nos exigem novos (outros) gestos. Nesse deslocamento, o estrangeiro não se revela apenas como figura social, mas como experiência íntima: ser estrangeiro diante de si mesmo. E ser estrangeiro de si é o próprio da psicanálise.
É nesse ponto que a contribuição do psicanalista argentino Alfredo Eidelsztein se torna preciosa. Ele propõe uma diferenciação entre o Outro e o (A), distinção que abre caminhos para refletirmos sobre a imigração e, de modo mais amplo, sobre o sujeito em análise.
O Outro se refere a alguém que encarna e ocupa o lugar desde o qual recebemos nossa própria mensagem. É uma função sustentada por um sujeito falante, ainda que este nunca coincida plenamente com o lugar que ocupa. Já o A representa a ordem simbólica: o campo da linguagem, da lei e dos significantes. Trata-se de um lugar virtual, um “tesouro de significantes”, sempre vazio e sem encarnação.
Embora distintos, Outro e A se confundem em nossa experiência. Afinal, quando alguém fala conosco, é um sujeito encarnando esse lugar; mas o que está em jogo não é apenas a sua fala — é também o atravessamento do código, da língua e da cultura que o sustentam.
Essa distinção nos ajuda a pensar a imigração. Migrar implica encontrar-se frente a um Outro radicalmente diferente: outra língua, outros códigos, outras maneiras de habitar o mundo. Esse deslocamento evidencia a dimensão simbólica do A, pois mostra que, por trás de cada encontro, há um campo de significantes que nos precede e nos determina. Ao mesmo tempo, não é possível acessar esse campo senão pela mediação de sujeitos que encarnam, com suas próprias marcas, esse lugar do Outro.
Mas essa experiência não pertence apenas ao imigrante. Todos nós, em alguma medida, somos estrangeiros em relação a nós mesmos. A análise é justamente esse movimento de estranhamento, no qual o sujeito pode escutar a sua própria mensagem vinda de um lugar Outro. Como lembra Mirta Goldstein:
O sujeito em análise é um imigrante, migra de uma posição subjetiva à outra.
Nesse processo de deslocamento — seja geográfico, subjetivo ou analítico — emerge também a experiência do Unheimlich, o estranho familiar, tal como formulado por Freud (O inquietante, 1919). Migrar, tanto no sentido literal quanto psíquico, é muitas vezes deparar-se com aquilo que parecia conhecido, mas que, deslocado de seu contexto, se mostra inquietante. A língua materna que já não basta, os gestos habituais que perdem o sentido, o corpo que se vê inábil diante de novos códigos — tudo isso atualiza uma sensação de estrangeiridade interna.
O Unheimlich revela que o mais íntimo pode se tornar estranho, e que, nesse estranhamento, o sujeito é convocado a se reinscrever no simbólico. É aí que a análise opera: como espaço em que o infamiliar pode ser escutado sob nova luz, e onde o desconforto de não se reconhecer pode abrir caminho para novas formas de habitar a si mesmo.
A clínica se revela, assim, como lugar dessas travessias: espaço do dizer, onde algo pode encontrar voz e, ao se dizer, abrir brechas para o inédito. Trata-se de sustentar um campo em que o sujeito seja acolhido em sua singularidade, sem julgamentos ou prescrições, mas com a aposta de que algo novo possa emergir. É nesse movimento que se tornam possíveis outras posições subjetivas, novos modos de habitar a palavra — e, com ela, o mundo.

EIDELSZTEIN, A; Las Estructuras clínicas a partir de Lacan. Vol. I (2003, 2008, 2012, 2016, 2017, 2019).
FREUD, S. O inquietante. 1919. In: ____. Obras completas, volume 14: História de uma neurose infantil (“o homem dos lobos”), além do princípio do prazer e outros textos (1917-1920). 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
GOLDSTEIN, M; Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental (Rev. Latinoam. Psicopat. Fund.), São Paulo, v. 12, n. 3, setembro 2009, p. 85, no artigo “A condição errante do desejo: os imigrantes, migrantes, refugiados e a prática psicanalítica clínico-política”.




